O dilema de toda pessoa é nascer perdendo. Acredito que pior que a dor física, o grande conflito é a dificuldade de vínculo. Não, não estou me referindo a quem só sabe ganhar ou tem dificuldades de se relacionar, mas à difícil tarefa de amar e se separar, sendo perder desde o afastar-se há poucas distâncias até a morte de quem gostamos.
Grande parte de nossas vidas se dedica a construir relacionamentos, e muitos de nós buscam com afinco aqueles especiais, cada vez mais íntimos e fortes. Ao sairmos da barriga de nossas mães, iniciamos uma jornada de separações e tentativas de união, que em geral não se tornam tão umbilicais quanto gostaríamos, se é que realmente gostaríamos (os canibais que me perdoem, mas em vida é impossível seguir sendo literalmente um com quem amamos em todo o tempo).
As primeiras tentativas ocorrem na infância, com os próprios pais ou aqueles que mais amamos: a dificuldade de ir para escola sozinhos – lembro-me o quanto era terrível sair do carro e entrar no pré… Até que aprendemos a ter objetos substitutivos de amor, ou seja, outras pessoas podem também ocupar aquele vazio e confortar-nos com a sensação de pertencimento novamente. Encontramos o outro… Uma paixão só! Acredito que essa sensação venha culminar na gravidez, na ligação com o filho ou filha, no sentimento mais forte de pertencimento e responsabilidade por alguém, ao menos me parece ser.
Ainda assim a vida é interessante – há quem diga nesse momento que “prega peças na gente”! E após o vínculo de amor mais forte, intenso e visceral acontecer, o tempo trata de novamente repetir a separação: a mãe paulatinamente vai se distanciando da criança, para o bem desta, diga-se de passagem, porque somos antagonistas, desejo e repulsa, simbiose e distinção, precisamos construir quem somos por nós mesmos.
Penso nessas coisas quando vejo os pais sofrendo com a saída dos filhos de casa. Penso mais seriamente quando considero a questão do idoso. Alguns teóricos rezam que a dificuldade do idoso é estabelecer vínculos não frustrantes, e aí interfere o social e o individual, colaborando e intensificando as dificuldades da velhice. Ensaia-se tanto o amar e se separar que, obviamente, com o passar do tempo tende-se a “escolher” muito bem com quem se ligar de modo a tardar ao máximo a separação, mas essa é cada vez mais frequente pela eminência da morte.
Quando não há substitutos, pensamos na diminuição da libido e em um desinvestimento, ou seja, é quando os objetos não sustentam mais as condições de estabilidade e perduralidade necessárias. Percebemos uma restrição aos intercâmbios como defesa contra a frustração, uma perda de atividade antecedida por uma ausência de sentido para a mesma (GOLDFARB, 1998). Renunciar à atividade é aqui uma alternativa saudável e não maníaca, uma preparação para a morte.
Talvez o entregar-se aos poucos à morte pode ser entendido, então, como um cansaço na alma, um cansaço entre o perder e o tentar novamente.

"A separação da alma"
Referência
GOLDFARB, D. C. Envelhecer… Certamente. In:____________ Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.